Existe uma distribuição média do que cai na prova de residência médica: clínica 46%, cirurgia 20%, ginecologia e obstetrícia 10%, pediatria 8%, preventiva 8%.
Essa média não descreve corretamente nenhuma das grandes bancas.
Contamos 27.000 questões oficiais aplicadas entre 2022 e 2026, separadas por banca, e a variação é grande o bastante para mudar cronograma. Ginecologia e obstetrícia vai de 5,4% a 23,1% dependendo de quem faz a prova — um fator de mais de quatro. Cirurgia vai de 9,9% a 24,4%.
Este texto é o recorte por banca do levantamento que publicamos em o que mais cai na prova de residência. Aqui a pergunta é outra: não o que cai no Brasil, mas o que cai na prova que você vai fazer.
A tabela, banca por banca
Todas as linhas cobrem o mesmo período — 2022 a 2026 — justamente para que a comparação não misture época com banca.
"Outras" reúne psiquiatria e os temas complementares — imagem, genética e afins.
Uma observação sobre as últimas linhas: UNIFESP, UNICAMP e UNESP têm amostras de 200 a 350 questões no período. São suficientes para ler o desenho geral da prova, mas uma diferença de dois ou três pontos percentuais entre elas não significa nada. Leia essas linhas pelo formato, não pelo decimal.
O ENARE é o caso extremo, e é a prova que mais gente faz
Olhe a linha do ENARE de novo: 3,2% de pediatria e 5,4% de ginecologia e obstetrícia. Somadas, as duas áreas não chegam a 9% da prova.
Compare com o candidato que estudou pela média nacional, que reserva 18% do cronograma para essas duas. Ele gastou o dobro do que precisava, e o gastou tirando tempo de clínica e cirurgia, que juntas são 74% do ENARE.
Esse é o erro de cronograma mais caro que os nossos dados revelam, e ele é invisível para quem estuda por lista genérica de temas.
Vale uma ressalva honesta: o ENARE é um exame novo no formato atual, e desde este ciclo a etapa objetiva do acesso direto passou a ser a nota do ENAMED, que tem matriz de referência própria, definida pelo Inep. A distribuição histórica descreve o que foi cobrado; ela não é promessa sobre a matriz do ENAMED. O que muda na prática está em como funciona a nota do ENAMED.
UERJ é a banca mais clínica do país
Cinquenta e oito por cento. Quase três em cada cinco questões da UERJ são de clínica médica — o maior percentual de toda a tabela, e quase doze pontos acima da média.
E o outro lado da conta: pediatria fica em 3,8% e preventiva em 4,1%, os dois menores valores entre as bancas grandes depois do ENARE.
Para quem presta UERJ, isso reordena a preparação inteira: a prova recompensa profundidade em clínica muito mais do que amplitude entre áreas.
UNESP e PSU-MG invertem o desenho
Duas bancas fogem completamente do padrão, e na mesma direção.
A UNESP cobra mais ginecologia e obstetrícia (23,1%) do que cirurgia (9,9%). É a única da tabela em que isso acontece, e a inversão não é sutil: GO tem mais que o dobro do peso de cirurgia. Somando GO e pediatria, a prova é 37,3% materno-infantil.
O PSU-MG segue a mesma lógica. Como sua série histórica é mais antiga, ele não entra na tabela do período de cinco anos — mas no acervo completo, suas 605 questões se distribuem em 43,0% clínica, 21,3% GO, 14,5% preventiva, 11,6% pediatria e apenas 9,1% cirurgia.
Duas bancas, dois estados, mesmo desenho: cirurgia enxuta, materno-infantil pesada, preventiva acima da média. Quem prepara PSU-MG ou UNESP com cronograma calibrado pelo ENARE está estudando a prova errada.
O Revalida não é uma prova de residência
A linha do Revalida é a mais diferente da tabela, e por um bom motivo: ele avalia formação médica geral, não seleciona para especialidade.
Preventiva em 17,0% — mais que o dobro da média — e clínica em 35,3%, o menor percentual de todas. Ginecologia e obstetrícia em 14,8%, bem acima do que a maioria das bancas de residência cobra.
O perfil faz sentido: é uma prova desenhada em torno da atenção básica, da saúde coletiva e do cuidado ao longo do ciclo de vida, não em torno de subespecialidades hospitalares.
Para quem faz o Revalida e depois quer disputar residência, isso significa duas calibragens diferentes — e a segunda exige deslocar peso de preventiva para clínica e cirurgia. O contexto completo está no guia do Revalida 2026.
As paulistas não são intercambiáveis
Um erro comum é tratar "as provas de São Paulo" como um bloco. Os dados dizem o contrário.
Cirurgia na USP pesa duas vezes e meia o que pesa na UNESP. GO na UNESP pesa três vezes o que pesa na USP. Quem presta as cinco não consegue otimizar para todas — precisa escolher qual calibra o cronograma e aceitar estar subótimo nas outras.
A escolha racional é calibrar pela banca de maior prioridade real, não pela média das cinco. A concorrência de cada uma está em especialidades mais concorridas, e as datas, no calendário 2027.
Como transformar isso em cronograma
Três movimentos concretos, em ordem.
1. Calibre pela sua banca-alvo, não pela média. Se o seu alvo é o ENARE, clínica e cirurgia merecem cerca de três quartos do tempo. Se é a UNESP, materno-infantil merece mais de um terço. A tabela acima é o multiplicador a aplicar sobre o seu cronograma atual.
2. Não corte o que é pequeno para a sua banca — apenas não o infle. Pediatria com 3,2% no ENARE ainda são três ou quatro questões numa prova de cem, e em processo decidido por décimos isso decide vaga. A diferença é entre "estudar o essencial" e "estudar como se fossem 11%".
3. Cruze frequência com a sua taxa de erro. Este é o passo que nenhuma tabela agregada resolve. Um tema com 24% da prova que você acerta 85% das vezes não merece mais tempo; um com 8% que você acerta 40% merece. O raciocínio completo está em como estudar para a residência médica.
O que esta contagem não mede
Três limites, ditos com todas as letras.
Não é a matriz oficial de nenhuma banca. É a contagem do que foi cobrado nas provas que indexamos, não um documento normativo. Bancas mudam desenho, e o ENARE mudou o dele neste ciclo.
O tamanho da amostra varia muito entre as linhas. ENARE tem 6.641 questões no período; UNESP tem 212. As duas primeiras casas decimais significam coisas diferentes em cada linha.
A composição do acervo influencia. Bancas com mais edições indexadas no período pesam mais na linha "todas as bancas". Por isso a tabela compara cada banca consigo mesma no tempo, e não pelo volume absoluto.
E uma limitação que vale registrar porque explica o que não está aqui: a classificação por grande área está completa, mas a classificação fina por tema não está distribuída igualmente entre as áreas. Por isso este texto trabalha com grandes áreas, que são medidas de forma homogênea, em vez de ranquear temas dentro de cada banca.
Nota metodológica. Levantamento próprio na base do ResiProva, com dados extraídos em 21 de setembro de 2026. A tabela principal cobre 27.000 questões oficiais aplicadas entre 2022 e 2026, classificadas por grande área e aprovadas em conferência de coerência entre enunciado, gabarito e comentário. A janela de cinco anos é comum a todas as linhas, para que a comparação entre bancas não seja contaminada por diferenças de período indexado — o ENARE, por exemplo, só existe no formato atual desde 2021, enquanto USP e HCPA têm séries que começam em 2006. O PSU-MG não atinge o mínimo de 200 questões nessa janela e por isso é descrito separadamente, sobre o acervo completo de 605 questões de 2010 a 2025. Percentuais calculados sobre o total de cada linha. "Outras" reúne psiquiatria e temas complementares. Linhas com 200 a 350 questões sustentam a leitura do formato da prova, não comparações de poucos pontos percentuais. Esta contagem descreve o que foi cobrado nas provas indexadas; não é matriz oficial de nenhuma instituição.
Última atualização: 21 de setembro de 2026.
Referências
- Resolução CNRM nº 17, de 21 de dezembro de 2022 — processo de seleção pública
- Resolução CNRM nº 4, de 25 de maio de 2026 — escala de proficiência nos seletivos
- Nota Técnica INEP nº 19/2025 — matriz de referência do ENAMED
- Inep — Legislação do ENAMED
- Dunlosky et al. (2013) — Improving Students Learning With Effective Learning Techniques
- Rowland (2014) — Meta-analytic review of the testing effect
- MEC — Residência Médica: resoluções da CNRM
Perguntas frequentes
- Qual banca cobra mais clínica médica?
- A UERJ, com 58,0% das questões de 2022 a 2026 — quase três em cada cinco. É doze pontos acima da média de todas as bancas no mesmo período, que é 46,3%.
- Por que o ENARE cobra tão pouca pediatria?
- Nos dados de 2022 a 2026, pediatria é 3,2% e ginecologia e obstetrícia 5,4% no ENARE — somadas não chegam a 9%. Clínica e cirurgia respondem por 74% da prova. É o desenho mais concentrado da tabela.
- Existe banca que cobra mais GO do que cirurgia?
- Sim, a UNESP: 23,1% de ginecologia e obstetrícia contra 9,9% de cirurgia. O PSU-MG segue a mesma lógica no acervo completo, com 21,3% de GO e 9,1% de cirurgia.
- Por que o Revalida aparece tão diferente?
- Porque não é prova de residência. Ele avalia formação médica geral: preventiva em 17,0%, mais que o dobro da média, e clínica em 35,3%, o menor percentual da tabela.
- Posso usar a mesma preparação para todas as provas de São Paulo?
- Não sem perda. Cirurgia pesa 23,9% na USP e 9,9% na UNESP; GO pesa 7,6% na USP e 23,1% na UNESP. Quem presta várias precisa calibrar pela banca de maior prioridade real e aceitar ficar subótimo nas outras.
- Por que a tabela usa só 2022 a 2026?
- Para que a comparação não misture época com banca. O ENARE só existe no formato atual desde 2021, enquanto USP e HCPA têm séries que começam em 2006. A janela comum elimina esse viés.
- As linhas com poucas questões são confiáveis?
- Para ler o formato da prova, sim; para comparar diferenças de dois ou três pontos, não. UNIFESP, UNICAMP e UNESP têm entre 212 e 335 questões no período, contra 6.641 do ENARE.


