Pergunte a dez professores de cursinho o que mais cai na prova de residência e você recebe dez listas parecidas, todas plausíveis, nenhuma com um número ao lado. A frase padrão é "esses temas não são aleatórios" — e aí vem a lista, sem contagem, sem amostra, sem período.
Este texto faz o contrário. Fomos à base do ResiProva e contamos. São 60.314 questões oficiais classificadas, de 234 instituições, aplicadas entre 2005 e 2026 — o recorte do acervo do ResiProva que já passou por classificação de área e por conferência de coerência entre enunciado, gabarito e comentário. Para cada uma existe uma grande área atribuída. O que segue é a contagem, não a impressão.
O que este levantamento é — e o que não é
Antes dos números, o combinado, porque é o que falta em todo material parecido.
A amostra. 60.314 questões de provas reais, classificadas por área e conferidas quanto à coerência entre enunciado, gabarito e comentário. O recorte por tema usa o subconjunto de 34.508 questões já atribuídas a um dos 184 recortes temáticos da nossa taxonomia — um recorte é um assunto fechado, do tamanho de um capítulo, não uma especialidade inteira.
O viés que existe. A distribuição reflete o que as provas que indexamos cobraram. Não é um censo de todas as provas do país, e bancas com mais edições indexadas pesam mais no total. Onde isso muda a leitura, está dito.
O que a contagem não mede. Frequência não é dificuldade, e não é rendimento. Um tema que cai muito e que você já domina não merece mais uma hora de estudo. Voltamos a isso no fim.
A distribuição por grande área
Primeiro o mapa grosso, sobre as 60.314 questões classificadas:
Clínica médica sozinha é quase metade da prova. É o número que mais importa e o mais ignorado na hora de montar cronograma: quem divide o tempo igualmente entre as cinco grandes áreas está subestimando clínica por um fator de mais de dois.
Os 20 temas mais cobrados
Agora o recorte fino, sobre as 34.508 questões já atribuídas a um tema:
Uma observação sobre as posições 17 e 19: "Vias biliares e pâncreas" (cirurgia) e "Pâncreas e vias biliares" (clínica) são recortes distintos da taxonomia, não repetição — o primeiro cobra colecistite, coledocolitíase e conduta operatória; o segundo, pancreatite aguda, colestase e manejo clínico. A coluna "Área" separa os dois.
Três leituras que saltam da tabela.
Trauma é o tema mais cobrado do país, com folga. 1.568 questões — mais que o dobro do segundo colocado dentro da cirurgia. Trauma sozinho responde por quase um quarto de toda a cirurgia contada aqui.
Neonatologia é a pediatria. 1.325 das 3.698 questões de pediatria com tema atribuído — mais de um terço. Quem estuda pediatria começando por pneumonia da infância está começando pelo lugar errado.
Preventiva é mais previsível do que parece. Os quatro primeiros temas — atenção primária, princípios do SUS, bioestatística e vigilância — concentram 2.354 questões. É a área onde o retorno por hora de estudo é mais alto, porque o repertório se repete entre bancas.
Clínica médica por dentro
Como clínica é 44% da prova, vale abrir:
Cardiologia e endocrinologia disputam a liderança, e gastroenterologia aparece três vezes entre as nove primeiras — cirrose, pâncreas e esôfago somam 1.318 questões, mais que qualquer tema isolado de cardiologia. É um desequilíbrio que quase nenhum cronograma de cursinho reflete.
Cirurgia, GO e pediatria
Em cirurgia, os cinco primeiros temas somam 3.413 das 6.657 questões da área — mais da metade em cinco assuntos. Em GO, os dois primeiros são de rastreamento, não de urgência: oncologia ginecológica e mastologia somam 1.299 questões, à frente das duas principais urgências obstétricas somadas — síndromes hipertensivas e hemorragia obstétrica, 1.093.
O que mudou de 2022 para cá
A distribuição não é estática. Separando por período — e agora sobre as 60.314 classificadas:
Quatro movimentos, todos contra-intuitivos em relação ao que se costuma ouvir:
Clínica e cirurgia cresceram. Juntas passaram de 60,5% para 66,2% das questões recentes.
Pediatria e GO encolheram em participação relativa — pediatria caiu de 10,9% para 7,5%.
Temas complementares quase dobraram, de 2,7% para 5,2%. É o efeito das questões com imagem e das de genética, que cresceram nas provas dos últimos ciclos. Se você quer entender esse movimento, como estudar imagem para a prova trata dele em detalhe.
Psiquiatria saiu do irrelevante. De 1,8% para 2,7% — ainda pequena, mas 50% maior em participação.
Uma ressalva honesta: parte dessa variação vem da composição do acervo por período, não só da mudança de comportamento das bancas. O movimento de temas complementares e psiquiatria é consistente o bastante para confiar; a queda de pediatria deve ser lida com mais cautela.
Como usar isso sem virar refém da estatística
O erro previsível ao ler uma tabela dessas é transformá-la em ordem de estudo. Não é para isso que ela serve.
Frequência define o piso, não a prioridade. Um tema com 1.500 questões que você acerta 85% das vezes não merece mais tempo. Um tema com 300 questões que você acerta 40% merece. A conta que importa é frequência × sua taxa de erro — e essa segunda metade só o seu próprio histórico responde. O raciocínio completo está em como estudar para a residência médica.
A sua banca não é a média. Esta tabela é o agregado de 234 instituições. Se a sua prova é uma banca específica, o recorte dela é o que vale — e a distribuição pode ser bem diferente da média nacional, especialmente em preventiva, onde bancas estaduais cobram a política de saúde local.
Use a tabela para decidir o que cortar, não o que incluir. Todo mundo já estuda trauma e diabetes. O ganho está em perceber que gastroenterologia clínica pesa mais que cardiologia isolada, ou que rastreamento em GO vale mais que obstetrícia de urgência — decisões que o cronograma padrão erra.
No ResiProva, dá para filtrar exatamente esses recortes e ver a sua própria taxa de acerto em cada um, que é a metade da conta que falta aqui. Os critérios para avaliar qualquer plataforma estão no comparativo de bancos de questões.
O que estes números não dizem
Três limites, ditos com todas as letras.
Não é nota de corte nem dificuldade. A contagem diz quantas vezes um tema apareceu, não quantos candidatos erraram.
Não substitui o edital da sua banca. Mudança de formato muda distribuição. O ENARE de acesso direto, por exemplo, passou a ser avaliado pelo ENAMED, com matriz própria de sete áreas — o que altera o peso relativo em relação a uma prova de banca própria. O calendário 2027 traz o que cada banca confirmou neste ciclo.
A taxonomia é nossa. Outro corte de temas produziria outros números. Publicamos os rótulos exatos justamente para que a contagem seja verificável e discutível, em vez de uma lista de assuntos sem origem.
Nota metodológica. Levantamento próprio na base do ResiProva, com dados extraídos em 21 de setembro de 2026. A contagem por grande área cobre 60.314 questões de provas oficiais de 234 instituições, aplicadas entre 2005 e 2026, classificadas por área e aprovadas em conferência de coerência entre enunciado, gabarito e comentário — o recorte já classificado e conferido dentro do acervo de 122.569 questões distintas do ResiProva, que cobre 239 instituições; a diferença de cinco bancas são instituições que ainda não têm questões neste recorte. O ranking por tema cobre o subconjunto de 34.508 questões já atribuídas a um dos 184 recortes temáticos da taxonomia editorial, distribuídos em 7 grandes áreas. Percentuais calculados sobre o denominador declarado em cada tabela. Os cortes por período usam o ano de aplicação da prova. Amostra não é censo: a distribuição reflete a composição do acervo indexado e bancas com mais edições indexadas pesam mais no agregado.
Última atualização: 21 de setembro de 2026.
Referências
- Resolução CNRM nº 17, de 21 de dezembro de 2022 — normas do processo seletivo
- Inep — ENAMED: matriz de referência e notas técnicas
- MEC — Residência Médica: resoluções da CNRM
- Dunlosky et al. (2013) — Improving Students Learning With Effective Learning Techniques
- Rowland (2014) — Meta-analytic review of the testing effect
- Nota Técnica INEP nº 19/2025 — Matriz de Referência do ENAMED
- Inep — Legislação do ENAMED (Portaria MEC nº 330/2025)
Perguntas frequentes
- O que mais cai na prova de residência médica?
- Na contagem de 34.508 questões atribuídas a tema, o assunto mais cobrado é trauma e atendimento inicial (1.568 questões, 4,5%), seguido de neonatologia (1.325), atenção primária e redes de atenção (841), diabetes mellitus e complicações agudas (779) e abdome agudo (705).
- Qual grande área tem mais questões na prova de residência?
- Clínica médica, com folga: 26.673 de 60.314 questões classificadas, ou 44,2% do total. Cirurgia vem em seguida com 16,3%, ginecologia e obstetrícia com 14,3%, pediatria com 10,9% e medicina preventiva com 9,8%.
- Qual o tema mais cobrado em pediatria?
- Neonatologia, e não é perto: 1.325 questões, mais de um terço de toda a pediatria com tema atribuído. Depois vêm aleitamento e nutrição infantil (647) e crescimento, desenvolvimento e puericultura (643).
- Qual o tema mais cobrado em cirurgia?
- Trauma e atendimento inicial, com 1.568 questões — mais que o dobro do segundo colocado, abdome agudo (705). Os cinco primeiros temas de cirurgia somam mais da metade das questões da área.
- A distribuição dos temas mudou nos últimos anos?
- Sim. Comparando o acervo completo (2005–2026) com as questões de 2022 a 2026: clínica médica subiu de 44,2% para 46,3%, cirurgia de 16,3% para 19,9%, temas complementares (imagem e genética) quase dobraram de 2,7% para 5,2% e psiquiatria foi de 1,8% para 2,7%. Pediatria e ginecologia/obstetrícia caíram em participação relativa.
- Devo estudar na ordem dos temas mais cobrados?
- Não. Frequência define o piso, não a prioridade. A conta que importa é frequência multiplicada pela sua própria taxa de erro: um tema muito cobrado que você já acerta não merece mais tempo, e um tema médio que você erra merece. A tabela serve melhor para decidir o que cortar do que o que incluir.
- Esses números valem para a minha banca?
- São o agregado de 234 instituições. Se você presta uma banca específica, o recorte dela é o que vale — a distribuição pode diferir bastante da média nacional, sobretudo em medicina preventiva, onde bancas estaduais cobram política de saúde local.



