O RQE é o número que o Conselho Regional de Medicina anota no seu registro profissional quando reconhece que você é especialista. Sem ele, o diploma de residência existe, mas não produz efeito público: você não pode anunciar a especialidade, não pode assinar como especialista e não entra nas tabelas de remuneração que exigem titulação.
É um passo administrativo curto, quase sempre adiado, e que costuma travar exatamente quando o médico já precisa dele.
O que é o RQE, em uma frase
Registro de Qualificação de Especialista é a averbação da sua especialidade no CRM. O título é emitido por quem forma — o programa de residência ou a sociedade de especialidade. O RQE é o registro desse título no conselho, e é ele que vale perante o paciente, o convênio e a fiscalização.
A distinção importa porque as duas coisas são frequentemente confundidas:
Ter certificado e não ter RQE é a situação mais comum entre recém-egressos. Do ponto de vista da norma, esse médico ainda não é especialista para efeito de divulgação.
Quais são as duas portas de entrada
A Portaria CME nº 01/2016, homologada pela Resolução CFM nº 2.148/2016, reconhece duas trajetórias, e só duas:
- Residência médica concluída em programa credenciado pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM). A Lei nº 6.932/1981 define a residência como modalidade de pós-graduação sob a forma de curso de especialização, com treinamento em serviço, e seu art. 6º diz que os programas credenciados conferem título de especialista.
- Título de especialista emitido por sociedade filiada à Associação Médica Brasileira, nas condições que a Comissão Mista de Especialidades (CME) aprova.
O art. 11 da mesma portaria fecha a porta a qualquer terceira via: os CRMs devem registrar apenas títulos e certificados reconhecidos pela CME e emitidos pela AMB ou pela CNRM. Certificado de curso livre, pós-graduação lato sensu de faculdade particular e diploma de entidade não reconhecida não produzem RQE — o comparativo completo está em pós-graduação não é residência, e a via de titulação de quem não fez residência, em RQE sem residência médica.
Quantas especialidades existem, de fato
A relação vigente é a da Portaria CME nº 1/2024, homologada pela Resolução CFM nº 2.380/2024, publicada no Diário Oficial de 24 de junho de 2024: 55 especialidades médicas e 62 áreas de atuação.
O número de áreas de atuação é o que mais circula errado. Muita página ainda repete 59, que era a relação anterior à atualização de 2024. Entre as mudanças daquela portaria está a inclusão da Oncogenética como área de atuação vinculada a um conjunto amplo de especialidades, e a entrada de novos pré-requisitos — Medicina do Trabalho passou a ser pré-requisito para Toxicologia Médica, e Cardiologia para Medicina do Sono, por exemplo.
Há ainda um piso de carga horária que explica por que certos cursos nunca viram especialidade. O art. 5º da Portaria CME nº 01/2016 exige, para reconhecimento, no mínimo dois anos de formação em especialidade e um ano em área de atuação, com carga horária anual mínima de 2.880 horas.
Especialidade e área de atuação não são a mesma coisa
Área de atuação é um recorte dentro de uma ou mais especialidades, e depende delas. Não existe área de atuação solta: para certificar-se em uma, é preciso ter antes a especialidade que a portaria lista como pré-requisito.
Quem quiser entender como as especialidades se organizam entre acesso direto, pré-requisito e R+, o mapa está em acesso direto, pré-requisito e R+.
Como registrar: o procedimento
O pedido é feito no CRM em que você tem inscrição, presencialmente ou pelo portal CRM Virtual. O conjunto de documentos varia de conselho para conselho, e essa variação é real — não há formulário nacional único. O núcleo, porém, se repete:
Depois da análise pela comissão de qualificação profissional, o registro vai a homologação em sessão plenária do conselho. Só então o número é emitido e anotado na carteira. Os CRMs costumam indicar prazo da ordem de 30 dias para a tramitação, mas o calendário das plenárias é o que manda na prática.
Se você já tem RQE em um estado e transfere a inscrição, não refaz o processo: solicita ao CRM de origem a certidão de registro de especialidade e apresenta no novo estado.
Quanto custa
Há taxa, fixada por resolução do CFM e cobrada pelo CRM, e ela é reajustada periodicamente.
Houve uma longa janela de gratuidade: os CRMs isentaram a emissão de 2022 até 31 de dezembro de 2024, campanha que, segundo o próprio CFM, já havia beneficiado 86.510 médicos em janeiro de 2024. Naquele ano, o valor fora da isenção era de R$ 122,00 por título, conforme a Resolução CFM nº 2.368/2023.
Não localizamos, nas fontes oficiais consultadas, a tabela vigente em 2026. Trate qualquer valor publicado como indicativo e confirme na tabela do seu CRM antes de contar com ele.
Quantas você pode registrar, e quantas pode anunciar
São perguntas diferentes, e a confusão entre elas gera infração ética com frequência.
Registrar: não há, na Portaria CME nº 01/2016, um teto de RQEs que o médico possa acumular. Quem tem três titulações válidas pode registrar as três.
Anunciar: aí existe limite. A Resolução CFM nº 2.336/2023, no art. 13, §1º, alínea f, permite ao detentor de título a divulgação de até duas especialidades e das áreas de atuação a elas relacionadas. E o art. 4º, II, exige que o anúncio traga a especialidade seguida do número do RQE.
O detalhamento das regras de anúncio — o que pode ir no carimbo, no site e no perfil — está em RQE e publicidade médica.
Situação em aberto: a disputa sobre quem pode titular
Uma entidade criada em 2026, a Ordem Médica Brasileira (OMB), passou a oferecer títulos de especialista fora do sistema CFM–AMB–CNRM. Há duas frentes judiciais distintas, e elas não se confundem.
Na ação do CFM, a Justiça Federal concedeu tutela de urgência em 19 de fevereiro de 2026 proibindo a OMB de ofertar título de especialista, com fundamento na Lei nº 6.932/1981 e no parágrafo único do art. 2º do Decreto nº 8.516/2015 — dispositivo que define como título de especialista apenas o concedido pelas sociedades por meio da AMB ou pelos programas de residência credenciados pela CNRM.
Em outra ação, sentença da Justiça Federal de São Paulo reconheceu que associações privadas podem realizar atividades de ensino, avaliações e emitir certificados de natureza privada, mas não reconheceu à OMB o direito de conceder título de especialista com validade oficial. A AMB discorda da interpretação e apresentou recurso de apelação em 10 de agosto de 2026, ainda a ser julgado pelo TRF-3. Na mesma nota, de 14 de setembro de 2026, a entidade reafirmou que nada disso alterou as regras de obtenção do RQE.
Há ainda um precedente consolidado em sentido convergente, e ele trata da outra ponta do problema — o anúncio por quem tem pós lato sensu. O CFM noticiou em 23 de março de 2026 que o STJ não conheceu o agravo em recurso especial da Abramepo, mantendo o acórdão do TRF-1 segundo o qual apenas títulos obtidos por sociedade via AMB ou por residência credenciada podem ser divulgados como especialidade. O tribunal não entrou no mérito: registrou que o recurso deixou de impugrar de forma específica os fundamentos da decisão anterior.
O que isso significa na prática, hoje: título emitido fora das duas vias reconhecidas não gera RQE. Se você foi procurado por uma entidade com essa oferta, confira antes se ela é filiada à AMB para a especialidade em questão.
A apelação no TRF-3 segue pendente, e a conclusão pode mudar. Esta seção é a que será revista quando houver decisão.
Datas do ciclo
Nota metodológica. As duas vias de titulação, os limites de carga horária e a proibição de registro de títulos fora do sistema CME estão nos arts. 5º, 6º, 7º, 11 e 17 da Portaria CME nº 01/2016, anexa à Resolução CFM nº 2.148/2016, lida na íntegra no repositório de normas do CFM. A contagem de 55 especialidades e 62 áreas de atuação foi feita sobre o anexo da Portaria CME nº 1/2024, homologada pela Resolução CFM nº 2.380/2024. A lista de documentos reproduz o que um conselho estadual publica e serve como referência do núcleo comum; procuramos, sem encontrar, um rol nacional único de documentos aplicável a todos os CRMs — registramos como ausência de achado, e por isso a tabela é apresentada como núcleo, não como exigência fechada. O valor da taxa não é informado aqui porque não localizamos, nas fontes oficiais consultadas, a tabela vigente em 2026; o período de gratuidade citado é o de 2023, documentado por conselho estadual. O número do processo judicial da disputa com a OMB não consta das notas públicas do CFM e da AMB consultadas.
Última atualização: 21 de setembro de 2026.
Referências
- Resolução CFM nº 2.148/2016 — homologa a Portaria CME nº 01/2016
- Resolução CFM nº 2.380/2024 — homologa a Portaria CME nº 1/2024 (relação de especialidades e áreas de atuação)
- Resolução CFM nº 2.336/2023 — publicidade e propaganda médicas
- CFM — Comissão Mista de Especialidades: normativos
- Lei nº 6.932/1981 — dispõe sobre as atividades do médico residente
- CRM-AP — registro de especialidade e área de atuação: documentos e procedimento
- CRM Virtual — certificado de Registro de Qualificação de Especialista
- Cremepe — CRMs emitirão o registro gratuitamente a partir de 1º de fevereiro (2023)
- CFM — Ordem Médica Brasileira é proibida de emitir títulos de especialista, decide a Justiça
- AMB — nota oficial: esclarecimentos sobre títulos de especialista (14/09/2026)
- CFM — STJ nega seguimento a recurso da Abramepo (23/03/2026)
Perguntas frequentes
- O certificado de residência já vale como RQE?
- Não. O certificado prova a formação; o RQE é o registro dele no Conselho Regional de Medicina. Enquanto o registro não sai, o médico não pode anunciar-se como especialista, ainda que já tenha concluído o programa.
- Quais são as vias reconhecidas para obter o RQE?
- Duas: residência médica concluída em programa credenciado pela CNRM, ou título de especialista emitido por sociedade filiada à AMB. O art. 11 da Portaria CME nº 01/2016 determina que os CRMs registrem apenas títulos vindos dessas duas origens.
- Quantas especialidades e áreas de atuação o CFM reconhece hoje?
- São 55 especialidades médicas e 62 áreas de atuação, conforme a relação da Portaria CME nº 1/2024, homologada pela Resolução CFM nº 2.380/2024. O número 59, ainda muito repetido, corresponde à relação anterior.
- Quantos RQEs posso ter e quantos posso divulgar?
- A Portaria CME nº 01/2016 não fixa teto para quantos RQEs um médico pode acumular. Para divulgação, porém, a Resolução CFM nº 2.336/2023 permite anunciar até duas especialidades, mais as áreas de atuação relacionadas a elas.
- Quanto tempo demora o registro?
- Os conselhos costumam indicar prazo da ordem de 30 dias, mas o processo passa por análise da comissão de qualificação profissional e por homologação em sessão plenária, de modo que o calendário das plenárias influencia bastante o prazo real.
- Preciso refazer o RQE se mudar de estado?
- Não. Solicita-se ao CRM de origem a certidão de registro de especialidade e apresenta-se a documentação no CRM do novo estado, sem repetir a análise de mérito da titulação.
- Pós-graduação lato sensu gera RQE?
- Não. Especialização oferecida por instituição de ensino não é credenciada pela CNRM nem emitida pela AMB, e por isso não pode ser registrada. Ela só pode ser divulgada com a ressalva NÃO ESPECIALISTA, na forma do art. 13 da Resolução CFM nº 2.336/2023.