Duas coisas sobre análise curricular circulam erradas na internet brasileira, e as duas custam vaga.
A primeira é que o ENARE ainda tem essa etapa. Não tem. O Edital ENARE nº 02/2024, da edição 2024/2025, dedicava um capítulo inteiro ao assunto e dizia que "a análise curricular terá caráter classificatório e constituirá 10% (dez por cento) da nota final". Nos editais da edição 2025/2026 e da atual, 2026/2027, a expressão "análise curricular" não aparece uma única vez. O processo passou a ter uma etapa só: a prova objetiva, que hoje é o ENAMED, valendo 100% da classificação.
A segunda é que o peso da etapa varia de banca para banca. Não varia. Quando existe, vale exatamente 10% — e isso é norma federal, não escolha da instituição.
Este guia diz onde a etapa ainda existe no ciclo 2027, quanto vale, o que pontua item por item e, sobretudo, quando é o prazo de entrega — porque em pelo menos uma banca grande não enviar o currículo elimina o candidato.
E uma ressalva antes de seguir: este 10% não é o mesmo 10% da bonificação. A avaliação curricular é uma etapa do processo seletivo, que pontua títulos e atividades acadêmicas. A bonificação é um acréscimo de 10% concedido por lei a quem concluiu residência em Medicina de Família — outra base legal, outras regras, e está em bonificação de 10% na residência médica.
O teto de 10% é norma, não escolha da banca
A Resolução CNRM nº 17, de 21 de dezembro de 2022, é quem manda aqui. Ela estabelece que o processo seletivo pode ter até três fases: avaliação cognitiva (obrigatória e eliminatória), avaliação de prática profissional (opcional) e avaliação curricular, "de caráter opcional pela instituição".
E fixa os pesos como proporção, não como faixa:
Leia de novo a terceira e a quarta linha: 10% é proporção fixa, não "até 10%". É por isso que a tabela da próxima seção é tão uniforme — Unicamp 90/10, HCPA 90/10, UFCSPA 90/10, USP peso 9 e peso 1, PSU-MG 10%. Nenhuma banca pode decidir que o currículo vale 30%.
A resolução também exige que a banca publique a lista dos títulos aceitos e a pontuação de cada um, e que a avaliação seja feita por análise documental com critérios de edital. É por isso que todo edital com essa etapa traz uma tabela — o que você vai ver adiante é justamente essa tabela.
O que aconteceu no ENARE
A mudança é verificável comparando os editais, e o contraste é brutal:
O texto do edital vigente é direto: "o processo seletivo será composto por 1 (uma) etapa", e a nota "será calculada conforme a metodologia da Teoria de Resposta ao Item (TRI), sendo considerada, para todos os fins deste processo seletivo, exclusivamente a nota divulgada pelo Inep".
Um detalhe que quase ninguém conta: o ENARE não foi obrigado a cancelar. A avaliação curricular sempre foi "de caráter opcional pela instituição" na norma da CNRM. A HU Brasil exerceu a faculdade que sempre teve e migrou para etapa única. Não houve mudança de regra federal que forçasse isso.
Onde a etapa ainda existe — ciclo 2027
O prazo da USP merece destaque em vermelho. O edital estabelece que o envio da documentação é obrigatório para todos os classificados na primeira fase, e quem não envia é eliminado — não é "fica com zero na etapa", é fora do processo. A janela é de nove dias, em janeiro, entre 04 e 12/01/2027 ao meio-dia.
No Einstein a regra é mais branda: não enviar dá nota zero na etapa, não elimina.
O que pontua: USP e UNICAMP lado a lado
Vale comparar as duas maiores de São Paulo, cujos editais saíram com dois dias de diferença. Ambas pontuam de 0 a 100 dentro da etapa. Os itens principais:
A liga acadêmica é o contraste mais didático do ciclo. A USP exclui liga por escrito em dois itens distintos — o de extensão diz "EXCETO LIGA ACADÊMICA" em caixa alta, e o de representação estudantil repete "exceto Liga Acadêmica". A UNICAMP paga até 5 pontos por liga, exigindo mínimo de dois semestres na mesma. Mesmo estado, mesma semana, regras opostas. Quem monta currículo olhando "o que as bancas valorizam" em vez de ler o edital da banca-alvo perde pontos por isso.
O peso da iniciação científica também merece leitura atenta: nas duas, IC com bolsa e com publicação vale o máximo. Na USP, IC com bolsa e dois semestres sem publicação cai de 14 para 4 pontos. A publicação não é um bônus — é o que multiplica o item.
Um terço da nota curricular da USP não depende de você
Este é o achado mais desconfortável da leitura dos editais, e praticamente não se fala dele.
Entre os 14 itens da avaliação curricular da USP, quatro não têm relação com o que o candidato fez: existência de pós-graduação na faculdade de origem (15 pontos), ser hospital de ensino (12), corpo docente da instituição (8) e um fator multiplicador pela nota da faculdade de graduação no ENAMED 2025:
Ou seja: 35 dos 100 pontos vêm de atributos da escola onde a pessoa se formou, e o total ainda é multiplicado por até 1,20 pela mesma razão. Dois candidatos com currículos pessoais idênticos podem terminar com notas curriculares diferentes por causa da faculdade de origem.
Como a etapa vale 10% da nota final, o impacto na classificação é limitado — mas é real, e é informação que deveria entrar na decisão de onde prestar.
"Prova de títulos" não existe na residência médica
Se você busca por esse termo, encontra conteúdo errado — e a razão é simples: "prova de títulos" não é vocabulário da residência médica. É termo de concurso público em geral, de magistério e de carreiras jurídicas.
Procuramos a expressão nos editais de USP, Unicamp, HCPA, UFCSPA, Einstein, UERJ, ENARE, AREMG e na Resolução CNRM nº 17/2022: zero ocorrências como etapa de seleção. As duas únicas aparições da palavra "título" em contexto próximo, nos editais do HCPA e da UFCSPA, referem-se à "prova de Título de Especialista organizada por sociedade médica vinculada à AMB" — que é pré-requisito de inscrição em alguns programas, não etapa do processo.
O termo normativo é avaliação curricular. As bancas variam entre três nomes para a mesma etapa — e usam um quarto termo, que não é a etapa, para a tabela de pontuação:
Duas correções que circulam por aí
A Resolução CNRM nº 3/2025 não trata de currículo. Ela dispõe sobre a exigência de RQE como pré-requisito para processo seletivo, e é nesse sentido que o edital da USP a cita. Quem atribui a ela regra de peso curricular está citando a norma errada — a dos pesos é a nº 17/2022.
A Resolução CNRM nº 4, de 25 de maio de 2026, não mexeu nos pesos. Ela é a norma que passou a admitir o modelo de proficiência por TRI na avaliação cognitiva e que autoriza o uso do ENAMED como etapa de acesso direto e do ENARE para pré-requisito. O teto de 10% para a etapa curricular continua intacto.
O que fazer com isso agora
Setembro a janeiro é a janela inteira: HCPA entrega em novembro, UNICAMP e Einstein em dezembro, USP em janeiro.
Três decisões práticas. Primeira: leia o barema da sua banca-alvo antes de decidir o que ainda dá tempo de incluir no currículo — a diferença entre publicar em periódico PubMed e em SciELO é de 2 a 5 pontos dependendo da banca. Segunda: organize a documentação uma vez só, em PDF único, porque quatro das seis bancas pedem exatamente isso. Terceira: marque o prazo da USP na agenda com alarme, porque lá não enviar elimina.
E lembre que a etapa vale 10%. Os outros 90% continuam sendo a prova — a distribuição real dos temas cobrados está em o que mais cai na prova de residência, e as datas de todas as bancas deste ciclo, no calendário 2027.
Nota metodológica. Apuração feita sobre os editais oficiais do ciclo 2027 de cada instituição e sobre o texto do DOU das resoluções citadas, consultados em 21 de setembro de 2026. As comparações de ocorrência de termos foram feitas por busca textual nos PDFs dos editais. A supressão da etapa no ENARE está demonstrada pela comparação entre os editais das edições 2024/2025, 2025/2026 e 2026/2027 — a data do anúncio da mudança aparece apenas em fontes secundárias e por isso não é afirmada aqui. UNESP, IAMSPE, USP-RP, Santa Casa SP e SUS-SP não tiveram editais do ciclo 2027 localizados até esta data. A numeração dos artigos da Resolução CNRM nº 17/2022 mudou na republicação de 26/12/2022; por isso os dispositivos são citados aqui pelo conteúdo.
Última atualização: 21 de setembro de 2026.
Referências
- Resolução CNRM nº 17, de 21 de dezembro de 2022 (DOU)
- Resolução CNRM nº 4, de 25 de maio de 2026 (PDF)
- Resolução CNRM nº 3, de 8 de outubro de 2025 — RQE como pré-requisito
- Edital ENARE nº 02/2026 — Acesso Direto (PDF)
- USP-SP — Residência Médica 2027, Fuvest
- UNICAMP — Processo Seletivo Residência Médica 2027
- HCPA — Edital de Abertura das Inscrições 2027 (PDF)
- AREMG — Avaliação Curricular do PSU-MG 2027
Perguntas frequentes
- O ENARE ainda tem análise curricular?
- Não. A etapa existiu até a edição 2024/2025, quando valia 10% da nota final. Nos editais das edições 2025/2026 e 2026/2027 a expressão não aparece nenhuma vez: o processo passou a ter uma etapa única, a prova objetiva, que hoje é o ENAMED, valendo 100% da classificação.
- Quanto vale a análise curricular na residência médica?
- Exatamente 10% da nota final, quando existe. A Resolução CNRM nº 17/2022 fixa a proporção, e não uma faixa: em processo de duas fases é 90% prova e 10% currículo; em três fases, 50–60% cognitiva, 30–40% prática e 10% currículo. Nenhuma instituição pode atribuir peso maior.
- Quais bancas ainda têm análise curricular em 2027?
- Entre as que publicaram edital até 21/09/2026: USP-SP (prova peso 9, currículo peso 1), UNICAMP (90/10), HCPA (até 90 + até 10 pontos), UFCSPA/Santa Casa de Porto Alegre (90 + 10), Einstein (teórica 5, prática 4, CV 1) e PSU-MG/AREMG (10%). ENARE e UERJ no acesso direto não têm. A UNIFESP ainda não publicou o edital de 2027.
- Liga acadêmica conta pontos no currículo?
- Depende da banca, e o contraste é grande. A USP-SP exclui liga acadêmica por escrito, em dois itens do barema. A UNICAMP paga até 5 pontos, exigindo no mínimo dois semestres na mesma liga. Os dois editais foram publicados na mesma semana.
- O que é prova de títulos na residência médica?
- Não existe. "Prova de títulos" é vocabulário de concurso público em geral, não da residência médica — a busca textual nos editais de USP, Unicamp, HCPA, UFCSPA, Einstein, UERJ, ENARE e AREMG não retorna nenhuma ocorrência como etapa de seleção. O termo normativo é avaliação curricular; algumas bancas chamam de análise curricular ou análise de curriculum vitae.
- O que acontece se eu não enviar o currículo no prazo?
- Varia, e a diferença é séria. Na USP-SP, o edital determina que o candidato classificado que não enviar a documentação é eliminado do processo. No Einstein, não enviar resulta em nota zero na etapa, sem eliminação. Os prazos do ciclo 2027 vão de 25/11/2026 (HCPA) a 12/01/2027 (USP).
- O que mais pontua na avaliação curricular?
- Iniciação científica e publicação, nas duas maiores bancas paulistas. Na UNICAMP, IC vale até 20 pontos de 100; na USP, até 14. Em ambas, o valor máximo exige IC com bolsa e com publicação decorrente — sem publicação, o item despenca. Publicação em periódico indexado no PubMed vale 10 pontos nas duas.
